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Incubou: o Ecossistema que Acelera Startups de Cyber

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A cibersegurança deixou de ser um assunto restrito a grandes corporações. Hoje, representa uma das maiores oportunidades de empreendedorismo do século, e é exatamente nesse cenário que a Incubou surge como um ecossistema diferenciado: parte de Portugal, conecta dois continentes e projeta startups de defesa digital para o palco global. Neste artigo do Blog Dolutech, vamos mergulhar fundo nessa iniciativa que está a mudar o mapa da inovação em cibersegurança na Europa.

O Que é a Incubou e Qual o Seu Propósito

A Incubou é uma incubadora sediada em Vila Nova de Gaia, Porto, com um foco absolutamente singular no ecossistema português: apoiar empreendedores imigrantes, especialmente brasileiros, que chegam a Portugal com talento técnico mas sem rede de contatos, sem conhecimento do mercado europeu e, muitas vezes, sem acesso a investimento.

Mais do que um espaço físico de trabalho colaborativo, a Incubou funciona como uma ponte estratégica. O seu programa mais conhecido, o Cybertech Acceleration, é o primeiro e, até hoje, o único programa de aceleração em Portugal dedicado exclusivamente a startups de cibersegurança. Num ecossistema nacional dominado por aceleradoras voltadas para fintechs e turismo, essa especialização é, por si só, um diferencial competitivo imenso.

O projeto nasceu de uma intersecção pouco habitual: tecnologia, direito e a vivência direta do fenómeno migratório. E o nome por trás de tudo isso é Thiago Vieira.

Thiago Vieira: Da Blumenau ao Epicentro da Cibersegurança Europeia

Uma Trajetória de Quem Construiu para Vender e Voltou para Construir de Novo

Thiago Vieira nasceu em Blumenau, Santa Catarina. Com formação dupla em engenharia informática e direito, construiu uma carreira sólida na área tecnológica desde 2009. Em 2014, fundou a sua própria empresa no Brasil, que acabaria por vender cerca de três ou quatro anos depois, acumulando um capital tanto financeiro quanto de experiência que poucos empreendedores conseguem reunir tão cedo.

A mudança para Portugal, há sete anos, começou como um percurso académico: um mestrado. Mas rapidamente evoluiu para algo muito maior. Ao chegar ao país e sentir na própria pele os desafios da imigração empreendedora, Thiago começou de forma informal a apoiar outros brasileiros no processo de adaptação ao mercado europeu. A sua formação jurídica, adquirida paralelamente à tecnológica, deu-lhe uma visão abrangente sobre os obstáculos legais que as startups estrangeiras enfrentam em Portugal.

A queixa que ouvia com insistência era sempre a mesma: “as incubadoras não nos compreendem, falta empatia.” Quando as tentativas de entrar como mentor nas incubadoras existentes não funcionaram, Thiago tomou a decisão que marcou o seu percurso: “Decidi criar a minha própria.”

O Investimento e a Visão de Longo Prazo

Criar a Incubou não foi um processo simples. O espaço físico exigiu renovação completa, o projeto sofreu atrasos e o percurso foi exigente. No total, Thiago investiu 120 mil euros na construção do ecossistema. Uma aposta arrojada, mas sustentada por uma visão clara: ele estima que o projeto atinja 1 milhão de euros de faturação anual até 2030.

Mais do que um objetivo financeiro, essa meta reflete a escala do impacto que a Incubou pretende ter no ecossistema de cibersegurança luso-brasileiro e, progressivamente, global.

Em 2021, Thiago começou a atuar como investidor anjo. Em 2024, fundou a Cybertech Acceleration. Em 2025, deu mais um passo estratégico: passou a liderar um fundo de investimento voltado a startups de CyberDefense. A esposa e sócia, Bianca Taschner, integra a equipa, acompanhada por mais três profissionais, todos brasileiros.

O Programa Cybertech Acceleration: Como Funciona

Primeira Edição: Resultados Concretos

A primeira edição do Cybertech Acceleration recebeu mais de 100 candidaturas, selecionou 16 startups e acelerou 12 delas até à fase final. Dessas, sete apresentaram-se em palco na Web Summit, no stand da Apex e da Startup Portugal, três brasileiras e quatro portuguesas. A participação naquela que é a maior conferência de tecnologia da Europa não foi simbólica: resultou em capital levantado e processos concretos de internacionalização para várias das startups participantes.

No total, o programa da Incubou acompanha 14 projetos ativos, dos quais três são portugueses e a maioria tem origem no Brasil. Ao longo das suas edições, as startups investidas pelo ecossistema captaram um volume acumulado de mais de 270 mil euros em investimento, um número que consolida a Incubou como uma das referências práticas de geração de capital para startups de cibersegurança em Portugal. O programa gerou ainda oito novas startups, três nascidas num hackathon em Amarante e três em Startup Weekends apoiados pela Incubou no Brasil. A temática mais trabalhada foi o phishing, reflexo direto do peso crescente desse vetor no universo dos crimes digitais europeus e brasileiros.

Segunda Edição: Silicon Valley na Mira

A segunda edição arrancou em fevereiro de 2026 com um patamar completamente diferente. 12 startups foram selecionadas para um programa de dois meses que, pela primeira vez, inclui uma imersão presencial no Vale do Silício, com visitas à Apple e sessões na Google sobre Inteligência Artificial.

As startups selecionadas para esta edição são: Cyberx, Vulneri, Foco em Sec, Bythelaw, Evidencify, Cybermentor, Blueauth, Resh, Limanade, Cittadino, SecureNova e Prepara. Uma lista que ilustra bem a diversidade e o nível técnico do ecossistema que a Incubou está a construir.

Quatro dessas startups encontram-se ativamente à procura de investimento junto a fundos de capital de risco do Vale do Silício. O programa inclui ainda a mentoria de Krystel Leal, especialista radicada na Califórnia, que ajuda as equipas a entender a mentalidade e os padrões do mercado norte-americano.

Os três pilares desta segunda edição, nas palavras do próprio Thiago Vieira, são claros: capacitação, angariação de investimento e networking.

O Diferencial Humano: Empatia Como Estratégia

Um aspeto que separa a Incubou das aceleradoras tradicionais é a sua aposta deliberada na dimensão humana. A maioria dos participantes chega dominando a parte técnica, com soluções robustas e bem arquitetadas. O problema identificado por Thiago não era tecnológico, era comunicacional e comercial.

“Estas pessoas dominam a parte técnica. O problema é comunicar isso a um investidor ou cliente que não entende o tema. Falta visão comercial, falta treino em vendas, falta narrativa”, sublinha o fundador. Por isso, o programa investe fortemente em formação de soft skills, metodologias de comercialização e, sobretudo, networking estruturado.

Os números falam por si: no primeiro dia de cada edição, 95% dos participantes declaram que estão ali para estabelecer contatos. A Incubou entendeu que, sem essa componente relacional, o talento técnico fica preso dentro de apresentações que só outros técnicos conseguem apreciar.

É também neste ponto que a experiência migratória do fundador se transforma em metodologia: a empatia que faltava noutras incubadoras é aqui um processo estruturado de acolhimento e desenvolvimento.

Parcerias, Financiamento e o Ecossistema de Suporte

A Incubou não opera isolada. Colabora com instituições como o ISLA, a Universidade Lusófona e a Ordem dos Advogados de Braga, combinando perspetivas técnicas, académicas e jurídicas no acompanhamento das startups.

No plano institucional, conta com o apoio do IAPMEI e da Startup Portugal, e recebeu financiamento direto do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência), com um orçamento de execução de 158 mil euros.

A presença internacional do ecossistema é igualmente relevante. A Incubou já esteve representada em eventos na Lituânia, Londres e Qatar, e prepara novas missões ao Vale do Silício e à Arábia Saudita. Está também a construir pontes com programas similares, incluindo uma iniciativa parceira no Egito, voltada a técnicos de cibersegurança que querem criar as suas próprias startups.

A Oportunidade Regulatória Europeia

Um fator estratégico que Thiago Vieira identifica com clareza é o momento regulatório que a Europa atravessa. A entrada em vigor de frameworks como a Diretiva NIS2, o regulamento DORA e a crescente exigência do RGPD na dimensão da cibersegurança organizacional criam uma procura sem precedentes por soluções técnicas especializadas.

Para as startups brasileiras, este contexto é especialmente favorável. O Brasil já convive há anos com ameaças digitais sofisticadas, como engenharia social avançada, phishing direcionado e fraudes bancárias complexas, que a Europa começa agora a enfrentar de forma mais intensa. Esse know-how acumulado representa uma vantagem competitiva real no mercado europeu.

“O mercado de cyber na Europa está super aquecido com novas regulamentações criadas recentemente, e o talento brasileiro tem sido muito bem recebido. Por termos contato no Brasil com conflitos e golpes cibernéticos que são considerados sofisticados na Europa, conquistamos um espaço muito interessante e respeitado neste ecossistema”, resume Thiago.

Casos de Sucesso: O Impacto Real nas Startups

A SecureNova é um dos exemplos mais citados de startups que passaram pelo programa. Nas palavras de Luana Favetta, CEO da empresa: “O Cybertech Acceleration foi um divisor de águas para a Secure Nova: refinamos o nosso posicionamento, estratégia de go-to-market e narrativa de produto. As mentorias e conexões internacionais aceleraram a nossa validação e abriram portas para parcerias e visibilidade no ecossistema europeu.”

Esse tipo de resultado, a transformação de uma solução tecnicamente competente numa proposta de valor comunicável e comercialmente atrativa, é precisamente o que a Incubou afirma ser capaz de entregar de forma consistente.

Os Desafios e a Visão para o Futuro

A construção de um ecossistema desta natureza não é isenta de fricções. Thiago é frontal ao apontar que o envolvimento de entidades públicas nacionais ainda fica aquém do necessário. As aproximações ao Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS) não tiveram, até agora, o retorno esperado, e o setor privado português ainda participa de forma limitada no programa.

A ambição para os próximos ciclos é lançar uma nova edição ainda mais robusta, com enfoque em open innovation: empresas portuguesas que tragam desafios reais de cibersegurança ao programa, permitindo que as startups desenvolvam soluções e testem pilotos num ambiente controlado. Um modelo que beneficia ambos os lados, acelera a validação das startups e resolve problemas concretos das empresas.

No médio prazo, o objetivo é consolidar o papel da Incubou como ponte entre continentes, com foco especial no Médio Oriente, onde o investimento em tecnologia e indústria cresce a um ritmo acelerado, e claro, no mercado norte-americano, onde a segunda edição do programa já está a construir os primeiros alicerces.

Por Que Este Ecossistema Importa para a Cibersegurança Global

Nós, que acompanhamos o ecossistema de cibersegurança de perto, sabemos que o verdadeiro problema desta indústria nunca foi a falta de talento técnico. Foi sempre a dificuldade de transformar esse talento em produtos viáveis, empresas escaláveis e soluções comercializáveis.

A Incubou e o Cybertech Acceleration endereçam precisamente essa lacuna. Ao combinar aceleração técnica com formação comercial, suporte jurídico, networking internacional e acesso a investimento, o ecossistema criado por Thiago Vieira representa um modelo que Portugal, o Brasil e a comunidade de cibersegurança global precisavam ver emergir.

Com 12 startups rumo ao Vale do Silício, um fundo de CyberDefense em operação e parcerias em construção do Médio Oriente à Europa, a Incubou prova que segurança digital e empreendedorismo humano são, afinal, a combinação mais poderosa que este mercado pode oferecer.

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